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Por Emanuela Fernandes e Josy Sales

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Elsa tem 82 anos, 60 dos quais viveu sonhando conhecer a Fontana di Trevi. É uma menina divertida, audaz, travessa, que gosta de desafiar as convenções, ainda que esconda uma doença que a cada dia lhe consume o corpo, mas não a alma. Alfredo é um pouco mais jovem e sempre foi um autêntico neurótico obsessivo: um homem de bem, cuidadoso com a família, fiel a sua mulher e que sempre cumpriu com seu dever de pai, marido e cidadão. Com ele “tudo” parecia estar bem, mas ao ficar viúvo se desconserta, se angustia pela ausência da esposa. Num belo dia ele conhece Elsa! A partir desse momento tudo se transforma. O que antes havia passado a ser uma morte lenta e gradual, em que só vivia para tomar suas medicações e receber os cuidados de sua filha, passou a ser alegria. Elsa surge em sua vida como um torvelinho, disposta a demonstrar-lhe que a vida pulsa, que é linda e cheia de coisas para viver e que o que resta de vida é precioso e deve ser desfrutando da melhor maneira possível... Mas por que falar sobre Elsa e Fred¹? Porque aqui encontramos claramente pulsão, quer dizer, pulsões de vida do começo ao fim do filme, bem como pulsão de morte também, afinal ela está presente em toda satisfação. Elsa vê beleza, cor e desfruta cada momento de sua vida, embora seja pra ela uma verdadeira morte ter que ir às sessões de hemodiálise; coisa que ela oculta de seu novo amor.
"Além do Princípio de Prazer" é um artigo meta psicológico que tece considerações sobre o amor, o ódio, o sadismo, o masoquismo. Sobre como a pulsão de morte assume a fisionomia do ódio, da agressividade e como ela opera. Freud introduz essa nova força regendo nossa vida que até então era governada exclusivamente pelo princípio do prazer. Trata de algo que vai além do sentir prazer. Agora teremos não só o prazer, mas algo impedindo que ele exista: o princípio da realidade (que tem a ver com o supereu dos pais) e o retorno do recalcado acionando o desprazer no prazer. Podemos perceber no filme que quando Fred tenta se entregar aos gracejos de Elsa, ele sofre, embora lhe pareça ser interessante a mocinha de 80 anos. Com o surgimento dessa nova força não quer dizer que vai retirar ou excluir a outra já existente. O que antes, no princípio do prazer, se dava entre as forças da sexualidade e as forças de auto-conservação agora temos para além disso. E é assim que surgem mais claramente os conceitos de “Pulsão de vida”, onde a energia circula, e “Pulsão de morte” ela não circula.
O conflito entre pulsão de vida e pulsão de morte é um conflito eterno, em que o homem fica esmagado na luta que se estabelece entre a construção e a desconstrução de seu ser. Vivemos entre o prazer e o desprazer. Vida e morte andam lado a lado, em uma relação complexa e não simplesmente uma mera oposição.
A pulsão de vida tem como seus derivados a amorosidade, a criatividade, o desejo de expansão, a generosidade, em fim, tudo aquilo capaz de mobilizar a energia humana para a criação, expansão e manutenção da vida: é o que faz Elsa quase que todos os momentos de cada dia.
A “pulsão de morte” expressaria uma tendência para o retorno à imobilidade, que é o nosso ponto de partida e como diz na bíblia, “Tu és pó, e ao pó tornarás” o homem busca esse retorno, o chamado Nirvana. Seus derivados seriam a auto destrutividade, a agressividade, a auto limitação de vida; o que Fred faz quando morre sua mulher, pois acredita não mais poder sorrir, viver e sim somente empanturrar-se de medicações. Freud diz que ela é, portanto, “a Pulsão por excelência, pois tende à redução absoluta das tensões internas, impelindo o ser vivo a retornar a um estado que, pela ausência de tensões, só poderia ser o estado inorgânico", onde não há representações. E como diz Lacan, em "toda a pulsão é virtualmente pulsão de morte". Assim, podemos dizer que a pulsão de morte é a "pulsão do supereu": um sentimento de culpa e a busca de punição inconscientes, que são manifestações da tensão entre eu e supereu.
Com isso Freud se aproxima da relação amor X ódio; e acaba equiparando o amor a Eros, e o ódio a Thanatos. Essa aproximação se dá quando ele passa a trabalhar a dualidade vida X morte para prenunciar a fusão e a neutralização de Tanatos por Eros. Logo em seguida, ainda no texto, realça a importância, para o ser humano, da união com um outro. Tal união seria o "anseio germinal da espécie e fundamental para estimular os processos vitais".
É também em “Além do princípio do prazer”, que vai atribuir ao fenômeno da compulsão à repetição o caráter de uma força demoníaca que sobrepuja o princípio do prazer. A partir desse momento fica evidenciada a importância do conceito de repetição, que pode ser considerado como constitutivo do próprio conceito de inconsciente, na medida em que revela o movimento da pulsão. Repetição, inconsciente e pulsão estão, assim, intimamente ligados!
Ao dar destaque ao conceito de repetição enquanto conceito fundamental, pode-se perceber a ligação que Freud estabelece entre repetição e pulsão de morte. A repetição é um trabalho fundamental da pulsão de morte que relança insistentemente algo da ordem do real. É esse encontro, essencialmente faltoso, que os sonhos traumáticos insistem em trazer de volta, no movimento de retorno a uma impossível origem, a um estado de repouso absoluto, com a eliminação de todas as tensões. No lugar desse objeto impossível de encontrar, o que se encontra sempre é o real. É este inassimilável, traumático, que determina o movimento do desejo, que é sempre desejo de outra coisa. E, como diz Nietzsche, "amamos o desejo, não o ser desejo, não o ser desejado".


¹ Filme espanhol / argentino, dirigido por Marcos Carnevale, no ano de 2005.

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